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Seminário debate o futuro e a soberania da soja brasileira

Evento reuniu lideranças do agronegócio na Embrapa Soja, em Londrina (PR), para discutir segurança alimentar, desafios logísticos, mercado chinês e transição tecnológica no campo
10/08/2026 - 15:30

Produzir mais soja já não é suficiente para garantir a liderança brasileira no mercado mundial. Os próximos desafios do país passam por tecnologia, logística, sustentabilidade, rastreabilidade e, principalmente, pela capacidade de compreender as transformações dos mercados consumidores.

Essa foi uma das principais mensagens do VIII Seminário Desafios da Liderança Brasileira no Mercado Mundial da Soja, realizado nos dias 4 e 5 de agosto, na Embrapa Soja, em Londrina (PR).

Promovido pela Embrapa Soja, em parceria Abiove, ANEC, Aprosoja/MS, Aprosoja/PR, ASCB, CNA, OCB e Sindicações, o evento reuniu pesquisadores, produtores e lideranças do agronegócio para discutir os fatores que podem determinar a competitividade da soja brasileira nos próximos anos.

Ao longo dos dois dias, temas que vão muito além da produtividade estiveram no centro das discussões: a disputa tecnológica entre países, as novas prioridades da China, a segurança alimentar, os gargalos logísticos, as mudanças climáticas e a necessidade de preservar práticas sustentáveis, como o plantio direto.

Na abertura do seminário, o chefe-geral da Embrapa Soja, Alexandre Nepomuceno, destacou a necessidade de conciliar a pesquisa voltada aos problemas atuais do campo com investimentos em tecnologias capazes de transformar a agricultura no futuro. Segundo ele, a modernização da estrutura de pesquisa é parte desse processo. A unidade renovou equipamentos e frota e busca ampliar a capacidade de desenvolver soluções para os desafios que surgem no setor produtivo.

"Conseguimos, renovamos toda a nossa frota. Só para vocês terem ideia, a nossa colheitadeira quando nós assumimos era de 35 anos. Dois caminhões de mais de 30 anos. Conseguimos renovar, estamos com a frota renovada, equipamentos também. Quando se fala em ciência você tem que trazer essa visão de futuro. Ver tecnologias inovadoras e trazer pro Brasil".

Nepomuceno também destacou o reconhecimento internacional da cientista Mariangela Hungria, vencedora do World Food Prize, e a transição de comando da Embrapa Soja, que terá Adilson de Oliveira como novo chefe-geral a partir de 1º de setembro.

"Pela primeira vez uma pessoa do Brasil ganha sozinha e é uma mulher, que é a Mariangela Hungria. Então nós queremos eternizar isso aqui na Embrapa Soja [...] E o Adilson, que ajudou a construir com a gente essa mudança aqui na Embrapa Soja, a partir de 1º de setembro será o novo chefe. Muito boa sorte, Adilson, obrigado por essa parceria nesses 5 anos e 11 meses".

A mensagem reforçada durante a abertura foi de que a posição conquistada pelo Brasil precisa ser sustentada por uma base científica capaz de antecipar mudanças e oferecer soluções ao produtor.

A discussão ganhou dimensão geopolítica na conferência de abertura, conduzida por Marcelo Morandi, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente.

Para ele, o sistema alimentar mundial passou a ocupar um espaço estratégico nas relações entre países. A produção de alimentos deixou de ser apenas uma questão econômica e passou a envolver segurança nacional, tecnologia e controle das cadeias produtivas.

“Os alimentos hoje são uma infraestrutura geopolítica e de segurança nacional. A maior ameaça estratégica não é a gente perder um mercado, é a gente perder o controle tecnológico sobre como o alimento é produzido”.

Morandi também chamou atenção para as mudanças previstas no 15º Plano Quinquenal da China, que sinaliza uma busca maior por resiliência, estabilidade e segurança nas cadeias de fornecimento.  “A China quer controlar as cadeias de fornecimento e a rastreabilidade passa a ser, de novo, um passaporte de entrada”.

A relação com a China foi um dos principais pontos do seminário. O país asiático é o principal mercado da soja brasileira e vem passando por transformações que podem alterar o perfil da demanda nos próximos anos.

Durante o painel sobre as relações comerciais com o mercado asiático, o vice- presidente da Aprosoja/MS, Andre Dobashi, destacou que o Brasil precisa compreender a lógica de planejamento de longo prazo adotada pela China e antecipar as mudanças no comportamento do consumidor.

“O chinês passa a comer melhor e, a partir do momento em que pode comer melhor, vai exigir mais qualidade, segurança, rastreabilidade e sustentabilidade”.

Na avaliação de Dobashi, o Brasil não pode limitar sua estratégia à comemoração de recordes de produção e exportação. “A China não compra grão, ela compra previsibilidade, segurança alimentar e, principalmente, confiança.”

Para ele, o desafio brasileiro agora é transformar a capacidade de produzir em uma estratégia de longo prazo, capaz de garantir espaço para a soja nacional em um mercado cada vez mais exigente.

“Hoje o desafio já não está mais em produzir. O Brasil já se tornou o maior produtor e agora a gente precisa entender que ficar comemorando exportação recorde não é o caminho”.

No segundo dia do seminário, a sustentabilidade ganhou destaque, especialmente diante dos impactos das mudanças climáticas sobre a agricultura.

A palestra do professor Marcos Silveira Buckeridge (IB/USP) apresentou um panorama completo sobre os Impactos das mudanças climáticas na agricultura mundial.  

“As mudanças climáticas representam um desafio global que ameaça diretamente a produtividade, a qualidade dos alimentos e a segurança alimentar. Estamos vivenciando o aquecimento global com temperaturas médias em alta, além de eventos extremos mais frequentes, como secas, ondas de calor e tempestades . Isso se traduz em perda de produtividade, aumento de pragas, estresse hídrico e perda da qualidade nutricional dos alimentos. As consequências são graves: risco de inflação de alimentos, pressão sobre o comércio internacional e ameaças à segurança e estabilidade global, afetando principalmente as regiões tropicais. Por isso, a adaptação é urgente e a inovação com ciência e tecnologia é inevitável. O futuro da agricultura depende diretamente de como reagimos a esse desafio”.

Outro fator decisivo para a competitividade é a infraestrutura necessária para levar a produção até os mercados consumidores.

O pesquisador Thiago Péra, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ/USP), destacou que o custo da soja para o comprador internacional não termina na propriedade ou no armazém. Frete, distância, tempo de transporte e eficiência das rotas fazem parte da decisão de compra.

 “O nosso cliente chinês faz a mesma conta: qual é o preço da soja mais a logística e o frete? Quem for o mais barato, eu compro. A partir do momento em que o Brasil tem competitividade na logística, a gente consegue ter um custo mais barato.”

Segundo Thiago, hoje o maior desafio do agronegócio brasileiro não está mais na porteira para dentro. "O Brasil já aprendeu a produzir com excelência; agora o gargalo é logístico e a gente precisa entender que ficar comemorando apenas recordes de exportação sem resolver a infraestrutura não sustentará a nossa liderança".

  O próximo passo da soja brasileira

Ao reunir ciência, geopolítica, mercado, sustentabilidade e logística em uma mesma discussão, o VIII Seminário mostrou que a liderança brasileira na soja entrou em uma nova fase.

O Brasil já construiu uma posição de destaque pela capacidade de produzir em escala e com elevada produtividade. O desafio agora é garantir que essa liderança seja sustentável no longo prazo.

Mapeamento do Uso e Ocupação do Solo

Ao final do evento, o vice-presidente Andre Dobashi, e o gerente Institucional da Aprosoja/MS, Tauan Almeida, entregaram exemplares do estudo técnico Uso e Ocupação do Solo ao novo chefe-geral da Embrapa Soja, Adilson Oliveira.

 

 

 

Texto: Crislaine Oliveira (Comunicação Aprosoja/MS)

Fotos: Embrapa Soja e Crislaine Oliveira